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terça-feira, 7 de agosto de 2018

Um casamento de 70 anos!

Eu não poderia deixar de aproveitar essa celebração como mote para umas das primeiras postagens após o recomeço deste blog. No dia 3 de julho, meus avós Ida e Stefano Bonissoni celebraram 70 anos de casados. Não, este não é um erro de digitação: são 70, 7-0, setenta...para eles, settanta anni. Tão incomum, que poucos sabem que são chamadas "Bodas de Vinho".

E como é bom poder ainda ouvir, alto e claro, esse jeito único de falarem. Aliás, dizer que é bom é uma injustiça com a sorte. Poder ouvi-los contando seus causos, dando seus conselhos, é um privilégio. Aquelas vozes, aquele sotaque, aquela forma peculiar de discutirem as coisas da vida.

Hoje estou um pouco longe, e a saudade aperta a cada foto que recebo da família, passando finais de semana com sabor de churrasco e chimarrão. O cheiro e gosto dessas "iguarias da casa da vovó" chegam a sair pela tela do meu celular quando vejo esses retratos.

Mas também não posso reclamar. Eu fui privilegiado durante toda a minha infância e parte da adolescência por morar pertinho. Das visitas quase que diárias enquanto criança, lembro de muita coisa: dos episódios de Chapolin e Chaves deitado com o vovô no chão da cozinha depois do almoço, à primeira - e única - chinelada que levei da vovó. Chinelada essa que não mataria um mosquito, mas que até hoje é lembrada quando brincamos com a Dona Ida, dado o escândalo que o menino Junior fez por ter "apanhado" da vovó. Lembro dos passeios até Seara para ver os tios ou "devolver" os primos no final das férias, deitados no porta-malas da Caravan do vovô. Hoje seria infração gravíssima, mas naquele tempo era primeira classe (tinha até travesseiro de pena pra poder deitar!).

Já falei do churrasco, mas não posso esquecer da sopa. Sopa da vovó sempre foi prato diário obrigatório. Todo o resto era opcional no almoço. Hoje a modernidade do fogão a gás dá uma mãozinha, mas até há pouco tempo o ritual começava lá pelas 6 ou 7 da manhã, com o tempero fresco direto da horta pra panela no fogão de lenha. Disputava um espacinho ali com a chaleira da água do chimarrão, que, como manda a tradição na casa de dois gaúchos de verdade, não falhava como primeiro ritual do dia. Ah, não seria justo esquecer do pinhão e da batata doce assada, que não devem ter faltado em nenhum desses 70 invernos que eles passaram juntos.

Como não haveria de ser diferente de qualquer história normal de vida, também tivemos os momentos difíceis. O vovô gostava de aprontar das suas. Essas que vou contar são só coisas que presenciei (porque quando ele conta as de infância, a lista cresce bastante). Já caiu do telhado, quando acabou quebrando algumas costelas e perfurando o pulmão. Já atolou a caçamba da prefeitura num córrego que ficava do lado da casa em que morávamos quando eu era pequeno. Até um choque de alta tensão ele levou quando essa tal de caçamba enroscou numa rede elétrica. Essa foi por pouco, seu Stefano. Foi arremessado longe... A vovó já foi até feita de refém em um assalto. E há quem diga que foi ela quem acalmou todo mundo (incluindo os assaltantes).

Relendo esses pequenos exemplos desse texto, o que sinto é gratidão pela vida ter permitido fazer parte dessa família e carregar esse sangue forte. Só vocês, e mais ninguém, conseguem dimensionar a batalha que foi serem filhos de imigrantes em uma terra onde não podiam nem falar a sua língua nativa por causa da guerra; "subir" do Rio Grande do Sul para Santa Catarina, pelo interior desse país que naquela época era nada além de mato, literalmente desbravando e ajudando a construir a nossa história; criar, com aquilo que a terra dava, toda uma família de vencedores. Vocês, dona Ida e seu Stefano, são motivo de muito orgulho para todos nós!

Faltaria "papel" no mundo para poder descrever todas as boas lembranças e sensações felizes que tive a oportunidade de vivenciar na companhia desses dois. Se juntássemos o que todos os filhos, netos e bisnetos têm a dizer, escreveríamos fácil um livro em um final de semana.

Vocês nunca utilizaram a internet e provavelmente não irão ler esse texto por aqui, mas muito do que está escrito, e um pouquinho mais, tive a oportunidade de lhes dizer durante o nosso último encontro para comemorarmos esse dia único e raro.

No mais, só tenho a dizer muito obrigado por serem quem são, como são.


Amo vocês!

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